Arquivo para Julho, 2008

Boas Vindas

Imagino que este deveria ter sido o primeiro post deste blog, mas só pude escreve-lo agora… ao lerem entenderão o porquê.

Este é o diário de uma nouveaux arrivante, essa é a forma que aqui se denomina os imigrantes que acabaram de chegar ao país, mais precisamente à província do Québec. Quem sou eu? Na atual circunstância poderia me descrever como uma quase ex-jornalista brasileira e futura patissière professionnelle québecoise. Uma escritora momentanemante frustarada na busca desesperada pela inspiração suprema e às palavras perdidas no imaginário um tanto quanto distante.

Às vezes me pego a perguntar como vim ressussitar aqui? O amor, sabe? Muda a alma e os hemisférios também. O deslumbre de viver, a alegria e aspirações do amante e pelos filhos. E foi aqui, em terras, por enquanto, nem um pouco geladas que me reencontrei e a felicidade voltou a marejar os olhos.

Saudade dos que ficaram e que me faz sentir que estou viva, cheia de orgulho por nossa coragem e escolha. Além disso, apenas uma imensa angústia pelos milhões que vivem abaixo da linha da pobreza e sofrem com a violência galopante que mata, mutila e tortura. E tudo fica como sempre foi, mas o poeta bem disse que “é preciso acreditar num novo dia”.

Durante anos o esforço, envolvimento e dedicação ao combate às injustiças sociais foi frustrante, vía a destruição dos valores que um dia me ensinaram a cada esquina da cidade de concreto, onde morava. O império do egoísmo e egocentrismo não parece ter data prevista para cessar, ao contrario de tempos em tempos ganha forças e torna-se mais sólido e indestrutível.

E as crianças sorriem, brincando pelas ruas ao acompanhar o pai que puxa um carrinho à procura de papelão ou a redor da mãe enquanto esta anda pelas calçadas por abrir cada saco de lixo colocado à frente dos prédios caros e imponentes de Higienópolis (bairro de São Paulo habitado pela classe média alta).

Muitos vivem nas ruas, famílias inteiras, cerca de 15 mil pessoas só na cidade de São Paulo e contam com a caridade para manter sua sobrevida, dia após dia. Fazem imensas filas para conseguir um prato de sopa, acendem fogueiras para suportar o frio, andam em bandos porque mesmo eles, quase mortos, também têm medo da violência gratuita que bate, maltrata e queima. E com o tempo desaparecem sem ao menos alguém saber quem é ou foram, enterrados como indigentes nos cemitérios e na memória que nunca chegou, apagando eternamente a trajetória ou declínio pessoal.

Ainda existem as favelas, um mundo à parte, de gente boa e pessoas ruins, de pobreza e safadeza. Conheci lugares de todos os tipos um senhor que tinha uma padaria em bairro chique e morava em uma area pública invadida para economizar nos impostos, luz, água e o que mais fosse possível, tinha carrão e TV por assinatura. Outra vez foi uma senhora, acho que nem poderia chamar assim, pois era muito jovem com seus 20 e poucos anos, mas o rosto cansado e maltratado lhe ocultava a idade, com suas três filhas, a mais nova um bebezinho de dois meses, abandonada pelo marido ainda grávida, que Morava ao lado de um córrego. Seu barraco de 2 x 2 metros, paredes de maderite e tábua de Madeira no chão para tampar o poço que estava logo abaixo, tinha apena uma cama de solteiro e um fogão, imagino que desligado há algum tempo, pois não vi vestígios nem espaço para um botijão de gás. Esse mesmo lugar foi o primeiro de alguns que para entrar precisei me identificar. Uma adolescente grávidanamorada do responsável pelo lugar (poderia dizer que o traficante que dominava), que designou um “soldado” para acompanhar todo o trajeto. O curioso é o nome poético de grande parte desses lugares que começaram com um sonho e se tranformaram no pesadelo social: Cidade de Deus, Alto da Alegria, Cantinho do Céu, Babilônia, Raio do Sol, Jardim Shangri-lá, Prazeres, Morro da Fé e Final Feliz,  poucos dos quais me lembro neste instante.

Como se não bastasse, no outro lado estão o poder corropido e a classe média que a tudo assiste como a uma novela, impassível, inativa, esperando que o mundo mude por si só. As estrututuras democráticas enferrujadas e decadentes das organizações de poder são o combustível para o desajuste e desilguadade. São tantos os nomes escolhidos para descrever cada uma dessas modalidade que com certeza esquecerei de algum: carteirada, colarinho branco, jogo de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e o mais intrigante, a quebra de decoro parlamentar que reflete o cúmulo da ineficiência e do envelhecimento dos sistemas de poder atuais.

Nem mesmo a dedicação e a boa vontade são capazes de tocar as pessoas que movem essa estrutura. Isso ficou claro, certo dia quando, após um ano afastada, visitei a região que trabalhei na prefeitura e conversando com a copeira sobre como estavam as coisas por lá ela me disse: – Está melhor, mais fácil, naquela época tinha que cumprir os horários. E eu me pergunto como alguma coisa pode mudar se as pessoas não mudam.

Hoje é provável que o olhar distanciado tenha me possibilitado voltar a escrever, durante a observação participante admito que o medo me dominou, como também domina a maioria dos brasileiros. E mais, me arrisco dizer que agora conheço a cara da morte, porque ela se esconde no rosto de cada uma dessas pessoas, inclusive no meu. Cazuza avisou que a morte está viva.

Ela também estava pela rua a pedir coisas, pedia dinheiro, pedia comida, pedia atenção… e as pessoas passavam aos montes pela movimentada avenida Paulista… e ela contiava por lá durante horas, dias, meses… só pedindo… e sorria!

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Gouin

Este é o nome de uma avenida, por sinal um belíssimo lugar, praticamente às margens do rio Sain-Laurent (me corrijam se estiver errada, ainda estou aprendendo a me localizar por aqui). Como domigo foi dia do Rogerio escrever no blog dele lá fui eu aproveitar a manhã pra fazer a indispensável caminhada e conhecer um pouco mais essa cidade maravilhosa. Segui pela avenida e logo parei em uma área verde…

      

      

            

 

 

E o trajeto terminou 1h30 depois ao encontrar Rogerio e as crianças no parque Henri Bourassa que é na rua de baixo de nossa casa.


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Gostinho de minas

… mas o queijo é parmasão, queijo minas aqui nem pensar, curado então… mas o que importa é que a Mira Serena matou a vontade de comer um montão de pão de queijo, nem jantou ontem. Graças às dicas das amigas Fabrícia e Gui pude encontrar e comprar o polvilho doce. Essa é uma receita mineiríssima da vó Nair, passada pela minha mãe. 

Pão de queijo

3 medidas de polvilho (lata de leite condensado ou qq outra)
1 medida de água
1 medida de oleo (não muito cheia, faltando cerca de 1 dedo)
sal
1 medida de queijo ralado
ovos até dar o ponto de enrolar

Ferver a água com o óleo e o sal, jogar joga por cima do polvilho, em uma bacia. Espere esfriar e vá colocando os ovos um a um (cerca de 7, depende da medida). Por último coloca o queijo ralado (ele amolece um pouco a massa). Eu coloquei na assadeira com uma colher. Forno 180 graus.

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Onde tudo começou (no Canadá)

A culpa de hoje estarmos vivendo essa história maravilhosa é de moço aí na foto, o Gustavo (namorado da Mariana – prima). Um certo dia estávamos em nosso apartamento em São Paulo, conversando banalidades, quando o Rogerio mencionou a vontade de sair do país e o Gustavo contou que o Candá tinha um programa para imigrantes qualificados… aí o resto vocês já sabem… Estamos reinventando a história da família que por volta de 1890 saiu da Itália e chegou à um país que ainda não conhecia, muito tempo depois e com novas tecnologias (agora foi de avião, navio nem pensar) é a nossa vez de dar continuidade à essa trajetória dos Scandiuzzi (+Nunes + Silva +Lima) em mais um novo país. 

“E nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz…
teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver.
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe pra trás, apenas começamos.
O mundo começa agora, apenas começamos.”

Renato Russo

 

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Onde tudo começou (no Brasil)

Foi em Aramina, pequeno povoado no noroeste de São Paulo, que meus avós, casados desde 1924, tiveram seus 10 filhos. Meu pai foi o caçula dessa turma que logo ficou cheia de crianças, os netinhos não demoraram a chegar. São inesquecíveis as férias em Aramina, brincar na terra, na escadaria da igreja, andar na rua sozinha, encontrar todos os primos.

Meu pai, o menorzinho, na frente e seus irmãos


Meus avós paternos com os netos que chegaram até 1974

Do outro lado estão os mineiros de Freitas Nunes, meus avós maternos nascidos em Conceição das Alagoas. Vô Jerôrino e a vó Nair tiveram quatro filhos, minha mãe também foi a caçula, temporona, nasceu quando os irmãos tinham entre 10 e 15 anos – que coragem hein, vó?

Vó Nair e o filho mais velho (acima) e vô Jerônimo (abaixo)

Para resumir um pouco a história um irmão de meu pai é casado com uma irmã de minha mãe, foi assim que eles se onheceram. Ele engenheiro elétrico, ela professora de francês (e eu não falo francês até hoje, tô agora aprendendo na marra, rsrs) casaram-se em dia 28 de feveiro de 1976.

Em 1979 eu cheguei, seguida por minhas irmãs em 1980 e 1983. Mudar já fazia mesmo parte de vinha vida. Até os 8 anos morávamos em Brasília, saímos para que meu pai pudesse montar a Rádio, fundada em abril de 1988. Ficamos um ano em Uberaba e, finalmente, fomos para Igarapava onde eles estão até hoje. Nesse tempo estudei jornalismo, conheci o Rogerio (amor, meu grande amor), nos casamos e fomos para São Paulo onde ficamos 7 anos. Nesse período chegaram os nossos dois lindos bebês, Mira  Serena e Michel Albert – também foi nesse tempo que apareceu a idéia de vir para o Canadá.

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Onde tudo começou (na Itália)

Se fosse possível fazer a cronologia de nossas famílias… as fontes de dados antigas não satisfazem nossos anseios. Até que recentemente encontrei um site (acho que americano) que está montando um arquivo internacional de obtuários de jornais antigos, infelizmente a pesquisa é só para assinantes ( não é barato se tornar um). Mas para a família Scandiuzzi podemos dizer que a história no Brasil começou com a chegada do Capitão Scandiuzzi ao Rio de Janeiro (onde consta o primeiro registro). Meu tio Écio conta muito bem essa história e outras mais em sua página e na outra página também. Eu vou apenas tentar fazer um breve registro fotográfico.

Esse senhor de chapéu (rsrs), o terceiro da esquerda pra direita, com a mão na barriga, é meu bisavô: Capitão Scandiuzzi. Corajoso, partiu da Itália com a família, filhos pequenos, de navio rumo a uma terra completamente desconhecida.

Então, depois da viagem, trabalhando em uma fazenda no interior de São Paulo vieram os filhos brasileiros, e o último deles era o meu avô paterno, Antönio Scandiuzzi Filho, que na foto está com a minha avózinha, Olga Regina Stopatto, também filha de italianos.

Ainda não terminei… em breve continuo.

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Tempo de saladas

Como eu já contei para algumas pessoas, o calor aqui em Montréal é quase insuportável… e a gente que pensou que estava fugindo do sol. Sabe aquele calor carioca, você toma banho e já sai transpirando? A coisa tá nesse nível com temperaturas chegando a 35 graus e sensação térmica de 40. Há poucos dias o governo local emitou um alerta para que as pessoas tomassem muita água, principalmente idosos e crianças, e não deixassem a temperatura dentro de suas casa ultrapassar os 30 graus, utilizando aparelhos de refrigeração. Aqui dentro de casa é muito mais quente que na rua, como os imóveis são projetados para suportar o frio, as paredes são como isolantes térmicos e as janelas, se fechadas, não ouvimos um barulho sequer da rua.


Sabe que hoje é um dia atípico deste verão, no momento faz 20 graus, porque o sol acabou de aparecer e ele só se põe, se não chover, às 9 horas da noite. Como o dia amanheceu nublado (também chove bastante e venta muito) o sol não se apresentou às 4h30 da manhã, como de costume.


Agora para enfrentar todo esse calorão só mesmo investindo nas saladas e a variedade de folhas e complementos aqui também é enorme. Só usar a imaginação. Esse post minha querida titia que vai adorar.

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Primeiro muffin

Cerca de 15 dias após nossa chegada à Montréal, a casa estava montada e a cozinha entrando em funcionamento e a primeira receita québecoise que eu preparei foram muffins com gotas de chocolate. Eu já tinha comprado as formas e estava ansiosa para testá-las.

 

Muffins (receita de base) 

 2 xícaras de farinha 
2 colheres (sopa) de açúcar (ou até 1/2 xícara para uma receita mais doce) 
1/2 colher (chá) de sal
1 ovo batido 
1 xícara de leite 
4 colheres (sopa) de manteiga 
3 colheres (sopa) de fermento em pó 
1/2 xícara de gotas de chocolate, uva passa, frutas secas, castanhas  ou para uma receita salgada, presunto, azeitona, queijo…

Misturar os ingredientes secos. Bater o ovo com o leite e, em seguida, misturar aos ingredientes secos. Derreter a manteiga e misturar à massa. Depois, acrescentar as gotas de chocolate ou outro complemento, de sua preferência. Colocar nas forminhas de muffins untadas e levar ao forno pré-aquecido 200 graus, por 20 minutos. Cuidado porque o tempo do forno aqui e no Brasil dá diferença, então é bom ficar de olho.

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Sobremesa de domingo

Depois de tantos almoços e tantas experiências gastronômicas na casa de nosso querido primo, ficou difícil eleger a sobremesa mais gostosa, mas essa com certeza é uma das vitoriosas e talvez a mais executada. O problema é que mesmo depois de tantas ocasiões não foi possível definir se o melhor acompanhamento é o sorvete ou chantilly. Esse ainda foi preparado em Uberaba (na casa da vó Nair), antes da viagem… vou agora começar a postar o que andou rolando até aqui.

Brownie de Chocolate

2 xícaras de açúcar
4 ovos
1 e ¼ xícara de farinha de trigo
1 xícara de chocolate em pó
2 tabletes de 200g de manteiga
2 colheres das de chá de baunilha
Nozes ou amendoim (opcional)

Bater tudo em batedeira (exceto as nozes ou o amendoim) e adicionar a margarina derretida aos poucos.
Coloque na forma sem untar. Asse em fogo baixo até formar uma película fina esbranquiçada por cima.
Deixe esfriar e corte em pedaços.

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Avental em uso

Nova casa, novos, móveis e, é claro, nova cozinha também… agora eu tenho espaço para as minhas experiências gastronômicas. Para este solene momento escolhi uma receita tradicional italiana, mas de elaboração complicada e demorada (digamos que eu passei quase a tarde toda na cozinha).
As diferenças:  - a começar pela batata (pomme de terre) que pouco tem a ver com a batata inglesa aí do Brasil, a consistência e o sabor que é um tanto semelhante mas para o meu paladar mais leve;
- para amassar as batatas a ferramenta é completamente diferente, o que trouxe um considerável atraso para a execução da receita.
Vou deixar de lado estes detalhes…
O importante foi o resultado final: Foi o gnocchi mas gostoso que eu já fiz!!! E pra quem ficou com vontade, obviamente, segue a foto e a receita. Por falar em receita, não tenho a menor idéia de onde surgiu está, só sei que copiei do caderinho de minha mãe que, aliás, poderia me contar de onde surgiu.

Gnocchi de ma mère  

Cozinhe cerca de 1 kg de batatas (+ ou – 6 batatas médias) em água com sal. Passe pelo espremedor e conte quantas colheres de sopa de massa obteve. Para cada 10 colheres de sopa de massa de batata junte 3 colheres de sopa de farinha de trigo, 1 colher de sopa de manteiga, 3 colheres de sopa de queijo ralado (nem pensar em usar aquele parmesão que tem cheiro de chulé) e amasse com 3 ovos inteiros. Misture tudo até a massa ficar bem ligada. Polvilhe uma mesa com farinha. Pegue um bocado de massa, enrole e corte em pedacinhos.Leve-os para cozinhar em água fervente com sal e um fio de óleo. Quando subirem os pedaços estão cozidos. O molho fica pra criatividade de cada um… adoro com molho vermelho ou apenas na manteiga com manjericão.

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