Hier encore…

Nem sei bem o que escrever… já faz tempo… a dor não minimiza com os dias, mas é como dizem a vida continua e, principalmente, as crianças demandam muita atenção. Assim passam as horas e quando chega a noite, a dor sufoca o peito, parece que vai explodir, tudo que deixou de ser dito ou vivido é um fantasma que assombra. Se houvesse ao menos mais uma vez… mas os sonhos reconfortam a ausência na manhã seguinte. E uma nova jornada começa. 

Por aqui a neve já se instalou, o frio é muito mais suportável do que eu imaginava (pelo menos por enquanto) e como as crianças adoram a neve… Michel Albert não pode ver um montinho acumulado que se joga e Mira Serena que antes não queria ir andando pra escola agora faz questão de ir correndo, o tempo todo brincando e se divertindo. Ela já está aprendendo a patinar com o pai que, aliás, dizem que dá um show no gelo.

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Só por hoje

Realmente é estranho como a dor se instala em nós e se revela, principalmente, quando o sol não está presente para denunciar o que nos mata por dentro e corrói, dia após dia… A impotência diante da grandiosidade de escolhas que não nos pertence é o carrasco vislumbrado somente pelas estrelas que invadem a longa madrugada fria… e ficamos apenas à indagar, até quando? Mas sabemos que nunca há fim e continua, continua, continua… 

 

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora

Não não não não
Viver é uma dádiva fatal!
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas -
Vamos com calma !

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi

Renato Russo

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Pela luz dos olhos teus…

Sempre soube que em algum momento deveríamos nos despedir… quando criança me lembro que chorava na cama ao pensar como seria esse dia. No final das contas a gente se prepara, mas nunca sabe como lidar com a situação. Eu me despedi de você antes de minha partida para o Canadá, deitada na cama ao seu lado, onde conversamos sobre o futuro. 
Só tenho à agradecer e me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de conviver com você, ser sua filha… ter como pai alguém que construiu seus sonhos e que sempre pensou nos outros e os ajudou da melhor maneira possivel. Sinto muito orgulho por tudo isso!
A verdade é que este é um momento muito difícil de se escrever, mas gostaria de compartilhar o que sinto e tudo que eu gostaria que você ouvisse neste momento. Só consigo me lembrar de uma de suas músicas prediletas e que me fazem sentir um pouco de tranquilidade.

Fogão de lenha

Espere minha mãe estou voltando
Que falta faz pra mim um beijo seu
O orvalho da manhã cobrindo as flores
Um raio de luar que era tão meu
O sonho de grandeza, ó mãe querida
Um dia separou você e eu
Queria tanto ser alguém na vida
Apenas sou mais um que se perdeu
Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava 
Deixe um bule da café em cima do fogão 
Fogão de lenha, e uma rede na varanda 
Arrume tudo mãe querida, que seu filho vai voltar 
Mãe eu lembro tanto a nossa casa
As coisas que falou quando eu saí
Lembro do meu pai que ficou triste
E nunca mais cantou depois que eu partí
Hoje eu já sei, ó mãe querida
Nas lições da vida eu aprendi
O que eu vim procurar aqui distante

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Encontros e Despedidas

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida

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Les chansons

Felizmente existem as músicas para nos consolar e dar forças para continuar a jornada.

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, e no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz…

Almir Sater e Renato Teixeira

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Tears in heaven


Você saberia o meu nome, se eu o encontrasse no céu?
Seria a mesma coisa se eu o visse no céu?
Eu tenho que ser forte e continuar,
Porque eu sei que não pertenço ao céu.

Você seguraria a minha mão, se eu o encontrasse no céu?
Você me ajudaria a levantar, se o encontrasse no céu?
Eu encontrarei o meu caminho de noite e de dia.
Porque eu sei, que não posso ficar aqui no céu.

O tempo pode entristecê-lo, o tempo pode dobrar os seus joelhos.
O tempo pode partir o seu coração, você estava implorando, por favor, implorando, por favor.
Além da porta há paz, estou certo.
E eu sei que não haverá mais lágrimas no céu.

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Há quem acredite em milagres…

É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar

É isso aí
Há quem acredite em milagres…

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Parc-nature de l’île-de-la-visitation

Domingo eu fujo da academia e aproveito para conhecer os parques da cidade. A cada visita uma nova surpresa com a natureza exuberante. Imagino que nem mesmo as fotos, que não resito em tirar, são capazes de transmitir com fidelidade tamanha beleza.

Assim que cheguei me deparei com o meu primeiro museu a visitar em Montréal. Pequenino, muito bem organizado e com guias para explicar a exposição que se consiste em uma réplica da primeira magasin général (se é que eu entendi direito). Nem havia pensado em entrar, mas ao passar pela porta um simpático senhor que se encontrava nas escadas me chamou para visitar o muséu.  
                                   

Segui a caminhada pela ponte, rumo às ruínas do que me pareceu ter sido uma fábrica de farinha, depois descobri que o lugar é conhecido como os moinhos du Sault-au-Récollet e que estiveram em pela atividade de 1726 à 1960. Tudo muito bem conservado e organizado para a visitação.

    

      

Eu estava caminhando para a ilha e ao entar na primeira trilha erma, cheia de lama (no dia anterior choveu muito) um senhor de seus 70 anos me parou para conversar. Ai, ai, tem coisas que só acontecem comigo – ninguém fica abordando o Rogerio pelas ruas – e me lembrou a titia que esses dias me perguntou se as pessoas se cumprimentam pela rua. Eu disse que não, mas tô coeçando a achar que comigo sim. A história é a seguinte, sabe quando a gente vê uma coisa extreordinária e fica desesperado para contar pra alguém e compartilhar o acontecimento? Acho que foi isso que aconteceu.
Ele me contou que tinha visto uma determinada espécie de passarinho (pela alegria dele imagino que rara), como eu disse que não conhecia ele começou a me explicar os detalhes das aves (cores, tamanho, diferença entre macho e fêmea). Então ele havia visto um casal desses passarinhos que ficaram bem próximos dele e cantaram, gritaram… foi uns 10 minutos nessa história. Acho que ele nem percebeu que eu mal falava francês, porque ele ria eu ria e dizia: – Nossa! Que interessante! Que legal! Que bonito! Nos despedimos e continuei minha caminhada.
     

O passeio terminou com uma agradável surpresa, enquanto eu estava parada descansando um pouco e pensando qual seria o melhor caminho pra voltar pra casa… eis quem chega aos meus pés… confesso que cheguei a ficar com medo dele subir em mim.

Fim de tarde volto pra casa, não resisti em comprar mais algumas coisinhas para a incrementar a cozinha e me lançar em minha mais nova descoberta: cupcakes!!! Depois virão as fotos, pena que não dá pra mandar pelo correio.

Se alguém quiser mais alguma informação do parque ou ver mais fotos ée só visitar o site oficial (em francês).

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Uma nova fruta

Como dizem que nesse mundo nada se cria, tudo se copia, fiz uma busca básica no google pra contar um pouquinho sobre a Blueberry (em inglês), bleuet (em francês) e a versão brasileira é conhecida como mirtilo. É uma fruta originária da América do Norte, pequenina, menor que uma uva e tem a cor azul escura.
Durante a segunda Guerra Mundial, diz-se que os pilotos britânicos comiam a fruta antes de vôos noturnos. Eles acreditavam que, devido à característica de seu pigmento que age de maneira benéfica aos olhos, enxergavam melhor os alvos inimigos.
A bleuet foi objeto de um estudo divulgado no “Journal of Neuroscience”, em que ratos ‘idosos’ alimentados com o equivalente para o homem a meia xícara de blueberry tiveram melhoria considerável no equilíbrio, na coordenação motora e na memória. A blueberry é rica em vitamina K, importante para a coagulação do sangue, para os ossos e rins. Como se não bastasse, suas propiedades antioxidantes, apontadas por pesquisadores, foi tema de reportagem da revista americana “Health”.
Utilizada em tortas, bolos, doces, geléias, licores. Dizem ainda que ao natural é perfeita para acompanhar carnes de caça. Eu preferi, para uma primeira tentativa, ficar com os tradicionais muffins. Pelo resultado final, foi uma excelente opção.  

Muffins aux bleuets et citron

2 ½ xícaras (290g) de farinhade trigo
1 xícara (225g) de açúcar
2 colheres de chá (10g) de fermento em pó
1 colher de chá (5g) de bicarbonato de sódio
½ colher de chá (2g) de sal
½ xícara (125g) de manteiga ou margarina
1 xícara (250ml) de iogurte natural
2 ovos batidos
2 colheres de sopa (30ml) de raspas de limão
1 ¼ xícara (315ml) de blueberry fresca ou congelada

Pré-aquecer o forno à 200°C.
Em uma vasilha grande, misture juntos a farinha, o açúcar, o fermento, o bicarbonato e o sal. Junte a manteiga (ou margarina) e misture bem (com as mãos, como massa de torta) até que fique com granuloso.
Em outra vasilha, coloque o iogurte, os ovos e as raspas de limão. Junte aos outros ingredientes secos e mexa bem.
Acrescente as blueberries.
Colocar a massa em formas de muffins untadas e assar por 20 à 25 minutos ou até que estejam cozidos e dourados.

Essa receita eu peguei do site recettes quebec e é de autoria da Cindy.

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Boas Vindas

Imagino que este deveria ter sido o primeiro post deste blog, mas só pude escreve-lo agora… ao lerem entenderão o porquê.

Este é o diário de uma nouveaux arrivante, essa é a forma que aqui se denomina os imigrantes que acabaram de chegar ao país, mais precisamente à província do Québec. Quem sou eu? Na atual circunstância poderia me descrever como uma quase ex-jornalista brasileira e futura patissière professionnelle québecoise. Uma escritora momentanemante frustarada na busca desesperada pela inspiração suprema e às palavras perdidas no imaginário um tanto quanto distante.

Às vezes me pego a perguntar como vim ressussitar aqui? O amor, sabe? Muda a alma e os hemisférios também. O deslumbre de viver, a alegria e aspirações do amante e pelos filhos. E foi aqui, em terras, por enquanto, nem um pouco geladas que me reencontrei e a felicidade voltou a marejar os olhos.

Saudade dos que ficaram e que me faz sentir que estou viva, cheia de orgulho por nossa coragem e escolha. Além disso, apenas uma imensa angústia pelos milhões que vivem abaixo da linha da pobreza e sofrem com a violência galopante que mata, mutila e tortura. E tudo fica como sempre foi, mas o poeta bem disse que “é preciso acreditar num novo dia”.

Durante anos o esforço, envolvimento e dedicação ao combate às injustiças sociais foi frustrante, vía a destruição dos valores que um dia me ensinaram a cada esquina da cidade de concreto, onde morava. O império do egoísmo e egocentrismo não parece ter data prevista para cessar, ao contrario de tempos em tempos ganha forças e torna-se mais sólido e indestrutível.

E as crianças sorriem, brincando pelas ruas ao acompanhar o pai que puxa um carrinho à procura de papelão ou a redor da mãe enquanto esta anda pelas calçadas por abrir cada saco de lixo colocado à frente dos prédios caros e imponentes de Higienópolis (bairro de São Paulo habitado pela classe média alta).

Muitos vivem nas ruas, famílias inteiras, cerca de 15 mil pessoas só na cidade de São Paulo e contam com a caridade para manter sua sobrevida, dia após dia. Fazem imensas filas para conseguir um prato de sopa, acendem fogueiras para suportar o frio, andam em bandos porque mesmo eles, quase mortos, também têm medo da violência gratuita que bate, maltrata e queima. E com o tempo desaparecem sem ao menos alguém saber quem é ou foram, enterrados como indigentes nos cemitérios e na memória que nunca chegou, apagando eternamente a trajetória ou declínio pessoal.

Ainda existem as favelas, um mundo à parte, de gente boa e pessoas ruins, de pobreza e safadeza. Conheci lugares de todos os tipos um senhor que tinha uma padaria em bairro chique e morava em uma area pública invadida para economizar nos impostos, luz, água e o que mais fosse possível, tinha carrão e TV por assinatura. Outra vez foi uma senhora, acho que nem poderia chamar assim, pois era muito jovem com seus 20 e poucos anos, mas o rosto cansado e maltratado lhe ocultava a idade, com suas três filhas, a mais nova um bebezinho de dois meses, abandonada pelo marido ainda grávida, que Morava ao lado de um córrego. Seu barraco de 2 x 2 metros, paredes de maderite e tábua de Madeira no chão para tampar o poço que estava logo abaixo, tinha apena uma cama de solteiro e um fogão, imagino que desligado há algum tempo, pois não vi vestígios nem espaço para um botijão de gás. Esse mesmo lugar foi o primeiro de alguns que para entrar precisei me identificar. Uma adolescente grávidanamorada do responsável pelo lugar (poderia dizer que o traficante que dominava), que designou um “soldado” para acompanhar todo o trajeto. O curioso é o nome poético de grande parte desses lugares que começaram com um sonho e se tranformaram no pesadelo social: Cidade de Deus, Alto da Alegria, Cantinho do Céu, Babilônia, Raio do Sol, Jardim Shangri-lá, Prazeres, Morro da Fé e Final Feliz,  poucos dos quais me lembro neste instante.

Como se não bastasse, no outro lado estão o poder corropido e a classe média que a tudo assiste como a uma novela, impassível, inativa, esperando que o mundo mude por si só. As estrututuras democráticas enferrujadas e decadentes das organizações de poder são o combustível para o desajuste e desilguadade. São tantos os nomes escolhidos para descrever cada uma dessas modalidade que com certeza esquecerei de algum: carteirada, colarinho branco, jogo de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e o mais intrigante, a quebra de decoro parlamentar que reflete o cúmulo da ineficiência e do envelhecimento dos sistemas de poder atuais.

Nem mesmo a dedicação e a boa vontade são capazes de tocar as pessoas que movem essa estrutura. Isso ficou claro, certo dia quando, após um ano afastada, visitei a região que trabalhei na prefeitura e conversando com a copeira sobre como estavam as coisas por lá ela me disse: – Está melhor, mais fácil, naquela época tinha que cumprir os horários. E eu me pergunto como alguma coisa pode mudar se as pessoas não mudam.

Hoje é provável que o olhar distanciado tenha me possibilitado voltar a escrever, durante a observação participante admito que o medo me dominou, como também domina a maioria dos brasileiros. E mais, me arrisco dizer que agora conheço a cara da morte, porque ela se esconde no rosto de cada uma dessas pessoas, inclusive no meu. Cazuza avisou que a morte está viva.

Ela também estava pela rua a pedir coisas, pedia dinheiro, pedia comida, pedia atenção… e as pessoas passavam aos montes pela movimentada avenida Paulista… e ela contiava por lá durante horas, dias, meses… só pedindo… e sorria!

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