Imagino que este deveria ter sido o primeiro post deste blog, mas só pude escreve-lo agora… ao lerem entenderão o porquê.
Este é o diário de uma nouveaux arrivante, essa é a forma que aqui se denomina os imigrantes que acabaram de chegar ao país, mais precisamente à província do Québec. Quem sou eu? Na atual circunstância poderia me descrever como uma quase ex-jornalista brasileira e futura patissière professionnelle québecoise. Uma escritora momentanemante frustarada na busca desesperada pela inspiração suprema e às palavras perdidas no imaginário um tanto quanto distante.
Às vezes me pego a perguntar como vim ressussitar aqui? O amor, sabe? Muda a alma e os hemisférios também. O deslumbre de viver, a alegria e aspirações do amante e pelos filhos. E foi aqui, em terras, por enquanto, nem um pouco geladas que me reencontrei e a felicidade voltou a marejar os olhos.
Saudade dos que ficaram e que me faz sentir que estou viva, cheia de orgulho por nossa coragem e escolha. Além disso, apenas uma imensa angústia pelos milhões que vivem abaixo da linha da pobreza e sofrem com a violência galopante que mata, mutila e tortura. E tudo fica como sempre foi, mas o poeta bem disse que “é preciso acreditar num novo dia”.
Durante anos o esforço, envolvimento e dedicação ao combate às injustiças sociais foi frustrante, vía a destruição dos valores que um dia me ensinaram a cada esquina da cidade de concreto, onde morava. O império do egoísmo e egocentrismo não parece ter data prevista para cessar, ao contrario de tempos em tempos ganha forças e torna-se mais sólido e indestrutível.
E as crianças sorriem, brincando pelas ruas ao acompanhar o pai que puxa um carrinho à procura de papelão ou a redor da mãe enquanto esta anda pelas calçadas por abrir cada saco de lixo colocado à frente dos prédios caros e imponentes de Higienópolis (bairro de São Paulo habitado pela classe média alta).
Muitos vivem nas ruas, famílias inteiras, cerca de 15 mil pessoas só na cidade de São Paulo e contam com a caridade para manter sua sobrevida, dia após dia. Fazem imensas filas para conseguir um prato de sopa, acendem fogueiras para suportar o frio, andam em bandos porque mesmo eles, quase mortos, também têm medo da violência gratuita que bate, maltrata e queima. E com o tempo desaparecem sem ao menos alguém saber quem é ou foram, enterrados como indigentes nos cemitérios e na memória que nunca chegou, apagando eternamente a trajetória ou declínio pessoal.
Ainda existem as favelas, um mundo à parte, de gente boa e pessoas ruins, de pobreza e safadeza. Conheci lugares de todos os tipos um senhor que tinha uma padaria em bairro chique e morava em uma area pública invadida para economizar nos impostos, luz, água e o que mais fosse possível, tinha carrão e TV por assinatura. Outra vez foi uma senhora, acho que nem poderia chamar assim, pois era muito jovem com seus 20 e poucos anos, mas o rosto cansado e maltratado lhe ocultava a idade, com suas três filhas, a mais nova um bebezinho de dois meses, abandonada pelo marido ainda grávida, que Morava ao lado de um córrego. Seu barraco de 2 x 2 metros, paredes de maderite e tábua de Madeira no chão para tampar o poço que estava logo abaixo, tinha apena uma cama de solteiro e um fogão, imagino que desligado há algum tempo, pois não vi vestígios nem espaço para
um botijão de gás. Esse mesmo lugar foi o primeiro de alguns que para entrar precisei me identificar. Uma adolescente grávidanamorada do responsável pelo lugar (poderia dizer que o traficante que dominava), que designou um “soldado” para acompanhar todo o trajeto. O curioso é o nome poético de grande parte desses lugares que começaram com um sonho e se tranformaram no pesadelo social: Cidade de Deus, Alto da Alegria, Cantinho do Céu, Babilônia, Raio do Sol, Jardim Shangri-lá, Prazeres, Morro da Fé e Final Feliz, poucos dos quais me lembro neste instante.
Como se não bastasse, no outro lado estão o poder corropido e a classe média que a tudo assiste como a uma novela, impassível, inativa, esperando que o mundo mude por si só. As estrututuras democráticas enferrujadas e decadentes das organizações de poder são o combustível para o desajuste e desilguadade. São tantos os nomes escolhidos para descrever cada uma dessas modalidade que com certeza esquecerei de algum: carteirada, colarinho branco, jogo de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e o mais intrigante, a quebra de decoro parlamentar que reflete o cúmulo da ineficiência e do envelhecimento dos sistemas de poder atuais.
Nem mesmo a dedicação e a boa vontade são capazes de tocar as pessoas que movem essa estrutura. Isso ficou claro, certo dia quando, após um ano afastada, visitei a região que trabalhei na prefeitura e conversando com a copeira sobre como estavam as coisas por lá ela me disse: – Está melhor, mais fácil, naquela época tinha que cumprir os horários. E eu me pergunto como alguma coisa pode mudar se as pessoas não mudam.
Hoje é provável que o olhar distanciado tenha me possibilitado voltar a escrever, durante a observação participante admito que o medo me dominou, como também domina a maioria dos brasileiros. E mais, me arrisco dizer que agora conheço a cara da morte, porque ela se esconde no rosto de cada uma dessas pessoas, inclusive no meu. Cazuza avisou que a morte está viva.

Ela também estava pela rua a pedir coisas, pedia dinheiro, pedia comida, pedia atenção… e as pessoas passavam aos montes pela movimentada avenida Paulista… e ela contiava por lá durante horas, dias, meses… só pedindo… e sorria!